quinta-feira, 13 de abril de 2017

Os “descobrimentos” do Brasil.

Já se disse que Cabral aportou à Bahia de Todos os Santos no dia 22 de abril de 1500, por um erro de navegação. Procurando um caminho para as Índias e pretendendo dar a volta à África – segundo Camões: por mares nunca d’antes navegados – o nosso ilustre antepassado veio dar à costa baiana, bem mais a oeste do que pretendia. Esse foi o nosso primeiro descobrimento; outros o sucederam. Depois de Cabral, outros patrícios vieram à Bahia dar às costas das baianas, porém alguns deles tiveram que haver-se com os Aimorés, índios antropófagos, já então habitantes destas plagas e que tinham no cardápio um inconveniente prato chamado ensopado de português.

Prof. Dr. Claudio Luchesa
Mais tarde os ingleses descobriram o Brazil (com z mesmo) do ouro. Não que os súditos de Sua Majestade se dessem ao trabalho de faiscar as minas gerais, transformar as pepitas em barras de ouro nas fundições de Ouro Preto e depois embarcá-las em naus de carga em direção à metrópole d’alem mar. Isso eles deixavam ao encargo dos nossos patrícios portugueses. John Bull, como eram conhecidos os ingleses, simplesmente esperava que as naus portuguesas se aproximassem da Europa e, antes que aportassem à barra do Tejo, desviavam-nas para a barra do Tâmisa. Com efeito: quem mais se apropriou do ouro brasileiro foram os piratas ingleses, apoiados e documentados pela rainha sob um alvará conhecido como carta de corso; daí veio a palavra corsário, ou vice-versa. Pelas suas façanhas como pirata e, é claro, por ter dado polpudas contribuições ao tesouro inglês, o pirata Drake foi condecorado pela rainha da Inglaterra como cavaleiro do reino. Incorporou o título nobiliárquico de Sir antes do nome e, de sanguinário pirata, transformou-se em nobre do reino passando a assinar-se Sir Francis Drake.

Depois disso, os holandeses descobriram o nordeste brasileiro; o nordeste do açúcar. Todavia, seguindo o exemplo dos ingleses, também eles não se deram ao trabalho de abrir a floresta, plantar a cana, fabricar o açúcar e transportá-lo até a Europa. Isso também os holandeses deixaram ao encargo dos nossos patrícios portugueses. Eles apenas financiavam o processo de produção/transporte, e compravam a produção a preços vantajosos, distribuindo-o com exclusividade pela Europa, evidentemente a preços altamente lucrativos.

Com efeito: já no século XVI, El’Rei de Portugal achou uma maneira de ocupar a então colônia. Trouxe para cá o cultivo da cana de açúcar, atividade que nossos irmãos lusitanos já desenvolviam com razoável competência, relativo sucesso e menor escala nas Ilhas Canárias. Contudo, em face do elevado volume de recursos financeiros para desenvolver, aqui e em larga escala, a atividade açucareira El’Rei socorreu-se de capitalistas holandeses para financiar o plantio da cana, o fabrico e o transporte do açúcar. Mas a parte do leão ficava com eles, num processo que hoje chamaríamos de agiotagem. Foi assim que os holandeses descobriram o Brasil.

Mas, sejamos honestos: os holandeses também plantaram no Brasil. Por divergência com a Espanha, que era quem de fato mandava em Portugal, os holandeses plantaram aqui um tal de Maurício de Nassau que, para expulsar, nos custou um bocado de trabalho.

Em seguida, já nos anos 50 do século passado, as potências nucleares também nos descobriam. Elas acharam aqui uma tal de areia monazítica, abundante em algumas das nossas praias. Navios estrangeiros que descarregavam aqui eram autorizados a carregá-la como lastro, para não voltar aos seus portos de origem chacoalhando como uma dançarina de frevo. Só as nossas autoridades não sabiam que as tais areias eram radioativas e forneciam matéria prima para um poderoso combustível nuclear. Aliás, a única coisa que as nossas autoridades sabiam desse tal nuclear, eram os petardos que Tio Sam jogou nos japoneses, em Hiroshima e Nagasaki, no mês de agosto de 1945.

Na mesma época, ONGs e grandes laboratórios estrangeiros também nos descobriram; isso foi na Amazônia. Objetivamente, mais do que mosquitos e tribos a catequizar, eles descobriram naquela floresta uma incalculável diversidade biológica: plantas com substâncias de propriedades medicinais, muitas das quais foram convenientemente embaladas na forma de remédios para muitos males. E é claro! Eles não perderam tempo em patentear tais substâncias, lá no exterior. Ainda pagamos royalties sobre medicamentos extraídos de plantas amazônicas.

Os Irmãos Metralha (1951) , quadrilha
de ladrões atrapalhados das histórias
em quadrinhos e desenhos da Disney.
Mais tarde ainda, agora já no governo de Fernando Henrique Cardoso, também fomos descobertos pelo capital especulativo, conhecido na época como dinheiro quente, ou dinheiro de motel. Esses capitais descobriram aqui umas taxas de juros astronômicas, uma verdadeira mina financeira, mais rica do que as de diamante da África do Sul. Garimparam à vontade aplicando de manhã e resgatando à tarde, a taxas de juros superiores a 50 % ao ano. Porém, devido a uma crise financeira, na época provocada pela Rússia de Gorbachev e Boris Yeltsin, tais capitais, assustados com o risco, abandonaram a mina, o que nos obrigou a reatar uma antiga amizade com o Fundo Monetário Internacional.

Assim, nestes 517 anos temos vivido de descobrimento em descobrimento, expressão que poderíamos trocar por rapina em rapina, sem prejuízo de significado. Contudo, nos últimos anos também fomos descobertos pelos nossos próprios políticos. Senadores, deputados e outros menos votados encontraram no Brasil um filão de ouro, aliás dois: o mensalão e o petrolão. Pelo que se sabe até agora, nem ingleses nem holandeses engordaram tanto a própria conta bancária quanto os nossos políticos. Mas parece que, para azar deles e é claro: sorte nossa, um tal de Sérgio Moro está botando farofa no ventilador deles.


Prof. Dr. Cláudio J. Luchesa. Graduado em Administração, Mestre em Ciências Sociais Aplicadas/Economia e Doutor em Engenharia Florestal, professor do Unicuritiba.

3 comentários:

  1. Muito bom primo. Gostei da historia, curta e grossa; sabida e esquecida mas sempre atual nos pagos de nossa "gentil terra". Sempre haverá um mal que nos afligirá quando o anterior passar. Ou tomamos as rédeas, ou continuarão zombando e roubando o povo "educado".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Grande amigo Professor Cláudio. Excelente texto. Uma verdade que todos brasileiros deveriam conhecer e não esquecer. E o psitacídeo......Ou seja a Tiriva.... Grande abraço.

      Excluir
  2. De outro lado, faltou falar um pouco mais sobre a institucionalização generalizada da roubalheira que o (des)governo petista promoveu no país e falar do próprio (des)governo petista. Mas por demandar um extenso texto, penso que isso será assunto para outro post ou mesmo para um grande livro, certo?

    ResponderExcluir

Obrigado pela participação!