quinta-feira, 9 de março de 2017

Aculturamento

Prof. Cláudio J. Luchesa
           Para compreender a nação brasileira é preciso analisar o estágio de aculturamento em que nos encontramos. Diversos aspectos da nossa cultura mostram claramente a nossa vocação para imitar, tal qual papagaios, expressões estrangeiras. Veja-se: chamamos aqueles momentos de bebericar com os amigos, depois do expediente, de happy hour. Porque não chamar este tipo de encontro de conversa fiada, hora do papo, ou algo semelhante?
Os nossos empresários, brilhantes e criativos, tem apelado com uma freqüência enervante para expressões da língua inglesa. Um cartaz na pizzaria anuncia delivery em vez de entrega em domicílio; o anúncio da loja faz referência a 50 % off, em vez de informar que o desconto é de 50 %. A imobiliária coloca um cartaz com a palavra rent, na janela do apartamento a ser alugado; em outro, este à venda, o cartaz informa: sale. Isso deixa claro que tais expressões atraem negócios. Ou seja: se o boteco, a pizzaria e a imobiliária usam expressões lá do norte do equador, o fazem na expectativa de atrair clientes. Do que se conclui que já é da cultura tupiniquim achar “chique no úrtimo” usar expressões estrangeiras.
Em certos dias do ano, vestimos máscaras e outros adereços próprios de uma pantomina, para participar de uma festa chamada halloween. Já tradicional nos Estados Unidos, à sua maneira ela comemora a data em que, há mais de um século, a ignorância dos primitivos colonizadores da América do Norte tocou fogo em meia dúzia de incautas, achando que eram feiticeiras. O evento ocorreu na cidade de Salém e, de uma ocorrência fanático-religiosa, surgiu esta festa popular dos Estados Unidos. O inusitado disso é que nós, aqui no Brasil, estejamos festejando isto. Alguém pode explicar o que é que temos a ver com as bruxas de Salém?
Em passado recente, nossos músicos davam um verdadeiro show de aculturamento. Um tal de Farnésio Dutra e Silva que, não obstante ser um pianista de grande competência e inspirado cantor, achou melhor garantir o cachê com o nome de Dick Farney. Até o grande Cauby Peixoto andou se rebatizando de Ron Coby e tivemos um tal de Ed Lincoln, tão brasileiro quanto as patifarias políticas. Mas, na área da música, o auge do aculturamento ocorreu quando um extraordinário saxofonista nascido no Mato Grosso, e cuja certidão de nascimento acusava chamar-se Moacyr Silva, para fazer sucesso teve que se rebatizar de Bob Fleming e tocar antigos sucessos de Cole Porter. Já nas nossas casas noturnas, em vez de um samba, dançava-se o rock and roll e suas variantes alucinógenas. Além de um saracoteio mais adequado a uma academia de ginástica do que a um salão de dança, o ritmo apresentava a desvantagem do casal dançar separado, o que, obviamente, não favorecia a deliciosa proximidade de um samba canção.
Na música, pelo menos, estamos reagindo. Mas, é de duvidar, se com vantagem, dado que hoje nossos ouvidos são constantemente agredidos por isso que se está chamando de música sertaneja, poluída por milhares de duplas, de talento duvidoso para dizer o mínimo.
Mas a coisa, chamando assim o nosso aculturamento, não para por aí; ela entra no campo da economia. Veja-se que, em lugar do velho e bom pano de algodão, produzido em nossas lavouras e transformado em tecido nos nossos próprios teares, na forma de um antigo brim que chamávamos de Coringa, já há muito, usamos o blue jeans, um tecido também rústico, originário do meio Oeste Americano e que a moda consagrou naquele país. Em lugar de tomar o guaraná, produzido com a famosa fruta amazonense, que além do sabor delicioso, dizem possuir também propriedades afrodisíacas, já há muito tempo tomamos a Coca Cola, um refrigerante criado ainda no século dezenove nos Estados Unidos, por um tal Mister Pemberton e em cuja composição diz-se que entravam folhas da coca, a mesma plantinha que fez a fortuna de Pablo Escobar.
É notório que somos um quintal norte americano. Não se discute também que o inglês é, hoje, uma língua franca. Porém, entre isso e nos aculturamos, vai uma distância enorme. Parece que não nos basta declarar subserviência às ordens externas, por uma política econômica liberal, muito boa para os capitalistas de lá. Mas é preciso também abandonar os nossos próprios costumes, nossas tradições e identidade cultural e adotar os deles?
É também notório que, dos séculos XVII ao XIX os norte-americanos aculturaram navajos, cheyennes, apaches, sioux e outras nações indígenas, sob o indiscutível argumento de uma carabina 45. Aos poucos nativos que sobraram, não restou outra alternativa que não aculturar-se aos caras-pálidas. Mas e nós, qual é a razão para imitarmos o Grande Irmão do Norte? Estaremos sendo ameaçados de invasão?
Seria bom que, ao invés desse processo de aculturamento, adotássemos o costume de eleger governantes com a fibra de um Trump e de outros que o antecederam. E, como eles, empregássemos a política econômica nacionalista, preconizada por Alexander Hamilton, ainda no século XVI e praticada até hoje entre o sul do Canadá e o norte do México.
Contudo, nas atuais circunstâncias e se não temos competência para manter independência econômica, pelo menos preservemos a nossa identidade cultural, instituindo e comemorando a festa do Boi Tatá, do Saci-Pererê e da Mula Sem Cabeça.


Prof. Cláudio J. Luchesa
Graduado em Administração, Mestre em Ciências Sociais Aplicadas/Economia e Doutor em Engenharia Florestal, professor do Unicuritiba.

Um comentário:

  1. Muito bom! Também vindo do Professor Luchesa não poderia ser diferente.

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